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Mechapolis
22 de Março de 2005
By Lord Eternal

                  Capítulo X : Caminhos distantes, caminhos ocultos, sempre caminhos

                  Com o passar dos últimos momentos, tudo enfim recebia uma definição mais compreensível e Caligaria continuava ali, estarrecida. Pouco a pouco, com a exata paciência do próprio tempo, Argumentum despertava diante de ambos, com palavras apaziguadoras.

    -Obrigada, a você também, meu leal guardião; por ter vigiado o meu terrível sono, durante os últimos séculos.
    -Não agradeça. Não me faça tal disfeita, amada senhora. Poupe-me de tal fardo. Imaginar que foi um trabalho, ofusca a beleza de minhas memórias.
    -O tempo jamais flui aqui neste recanto mas, para ti, meu guardião, ele jamais vai te mudar.

                  Argumentum volta sua atenção para Caligaria a quem, há pouco, chamou de filha.

    -Algo de errado comigo?
    -Não, apenas estava contemplando sua aparência. Já que os nossos caminhos voltaram a se cruzar, vejo-a de maneira diferente.
    -Estou sem palavras. Tudo tem sido tão estranho mas, ao mesmo tempo, muito familiar, disse Caligaria.
    -Compreendo. Mesmo sem palavras, estou certa de que está em estado de interrogação total.
    -Quem é você? Como me conhece? conheço-a de onde?
    -Tenha um pouco de calma e respire melhor. Uma resposta de cada vez, eu lhe entregarei. Eu sou Argumentum, um dos três pilares deste mundo.
    -Pilares?
    -Sim, é uma história muito antiga que começa bem antes do que possa imaginar.

                  Sem fazer restrições, Caligaria senta-se no piso e fixa sua atenção em Argumentum.

    -Ora... ora... mil desculpas por não termos um lugar melhor para conversarmos...
    -Sem problemas. Apenas quero ouvir tudo com clareza. Seja gentil e continue.

                  Maitrec também senta no piso.

    -Argumentum, tenho algo a contar.
    -Então, fale, velho amigo!
    -Nos últimos séculos, o jovem fundador brotou no mundo das sombras. Com a perda do último líder, o velho Ormacimus, este, que eles chamam de Maximillian, assumiu o lugar do líder. Após um longo período, num momento de crise, ele guiou todo o nosso povo, daquele mundo sombrío em direção à planície mais ensolarada, onde fundaram uma imensa cidade: eles a chamaram de Mechapolis.
    -Hum... o dito um dia foi, enfim, consumado: um jovem fundador apareceu. Muito obrigada Maitrec, por seu relato. Apesar de meu sono profundo, de certa forma, tenho conhecimento desta sua narrativa.
    -Fico feliz por ter sido útil e tenho um pedido a fazer: Mesmo tendo vivido naquela época, gosto de ouvir a mesma história, porque ainda gosto de pensar num bom final para ela.

                  Argumentum, voltou sua atenção para sua ampulheta e, ali, começou a mostrar algumas imagens.

    -No mais remoto tempo, na maior distância entre o passado e o nosso presente, houve uma outra raça, que se tornou totalmente cega com o poder de sua tecnologia. Esquecendo seus propósitos e o respeito, uma guerra brotou entre aqueles irmãos e, por esse motivo, nós, os mechas, fomos criados.
    -Somos os filhos dessa tecnologia, correto?
    -Sim.
    -Antes de continuar, pode me dizer como está Mechapolis?
    -Certamente.

                  Naquele mesmo vidro aparecia Mechapolis adormecida, a noite acolhia seus pensamentos.

    -Tem mais paz agora?
    -Tenho. Vivo há pouco nessa cidade, mas existe um grande amor em minha mente, por todos ali e por Mechapolis, em si.
    -Apesar de tudo, o amor ainda reside em você.
    -Amor, uma palavra antiga e quase esquecida por mim.
    -Mesmo conhecendo as histórias mais antigas, de você eu sei bem pouco, será que seria demais, se eu pedisse para você me contar um pouco sobre si mesma?
    -Se ajudar a obter as respostas, eu conto.

                  Argumentum enrola-se um pouco mais em sua ampulheta e mostra uma grande serenidade.

    -Em meus registros, fui ativada para ser uma simples operária, num mundo com outros mechas. Com o avanço daquela tecnologia, nós, a minha linha de mechas ficou defasada e, assim, fomos deixadas de lado.
    -Somente?
    -Realmente não gosto de falar disso, mas para você, eu quero contar.
    -Quando estiver pronta, quero ouvir.
    -Durante um longo tempo, trabalhei como sucata reaproveitada quando chegou um dia especial.
    -Noto uma certa alegria brotando em você.
    -Sim, naquele dia em especial, uma jovem mecânica me levou daquele lugar terrível e trabalhou em meu sistema, sou grata a ela pois me ajudou a desenvolver minha memória secundária e isso abriu muitas portas para uma nova compreensão.
    -Ela tinha um nome?
    -Amina... jamais esquecerei...
    -Está com saudades daquele tempo?
    -Sempre. Meus melhores dias vivi a seu lado. Amina me respeitou sempre e eu a ela e isso a ajudou a superar a perda de seu único parente. Ainda lembro dela chegando e dizendo " - Agora somos apenas nós duas. "
    -Caligaria é o nome que ela te deu?
    -Não, este nome sempre existiu no mais profundo de minha memória e, quando tive a chance de escolher um nome, eu pedi este.
    -Gostaria de ver o que aconteceu com seu mundo?
    -Você sabe?
    -Não. Mas você, sim.
    -Mas...?
    -Feche os olhos jovem Caligaria e veja o seu triste destino.

                  Caligaria fechou os olhos e imagens brotaram em sua mente. O céu estava azul e a grama ainda era verde; um dia de brisa leve, calmaria. Sentada no alto daquele morro, contemplava a esplêndida cidade logo abaixo quando algo fez todo o planeta tremer: o céu se turvou pois descia uma imensa armada.

                  Caligaria abre os olhos e cai.

    -Meu sonho não mentiu! Por que tenho medo de continuar vendo?
    -Porque você sempre teve certeza dos acontecimentos a seguir, disse Argumentum.
    -Imploro!! Não mostre mais!
    -Perdoe-me. Você deve continuar a ver...

                  Mesmo estando de olhos abertos, Caligaria continuou a enxergar o seu mundo afundar num caos: todas as suas irmãs iniciaram um golpe fatal naquele povo. Sua raça inteira era dizimada e seus grandes triunfos, apagados. Caligaria negou-se a acreditar em tudo durante muito tempo. Quando a guerra terminou, ela foi recapturada, consertada e novamente armazenada, para um dia servir aos seus donos novamente.

    -Pare! Por favor, pare! Não consigo suportar mais. Este fardo é terrível: ajudeia destruir quem eu mais amei!!!!!
    -Chore o quanto quiser, sei o quanto esperou para isso.

                  Argumentum aproxima-se e estende sua mão para Caligaria. Em resposta, ela golpeia aquela mão estendida.

    -Se você sabia, por que não me ajudou? Onde estava? Por que eu????
    -Todos os destinos sempre foram indecifráveis, toda a vida que você um dia teve, agora só lhe serve de lição.
    -Destino? Como tem coragem de falar sobre destino? Ninguém merece um destino como o meu! Ninguém!
    -Paciência, Caligaria! Pedia Maitrec.
    -Vocês que vivem num mundo de glória, jamais entenderão o que sinto agora!
    -Acredita mesmo na paz que a cerca? Indagou Argumentum.
    -Acredito no que penso ou, pelo menos, eu tento. Caligaria tomba mais uma vez.

                  Argumentum retorna a sua ampulheta e se mostra muito triste.

    -Da mesma forma, que você foi criada para ser uma máquina de guerra, nós todos deste planeta, de algum modo, compartilhamos o mesmo destino.
    -Impossível!
    -Acredita no impossível e não acredita em mim.
    -Aquela Mechapolis vive em perfeita harmonia! Caligaria falava exaltada.
    -Sim! O fundador empenhou-se em erigir essa fachada, para todos poderem ter alguma paz um dia. Mas nem sempre foi assim...
    -Então, o destino de todos é semelhante ao meu, Argumentum?
    -Talvez... Maximillian não vai permitir mas, para isso, nós todos devemos ajudá-lo. Por causa disso, também, ele guiou o nosso povo das sombras para a ensolarada terra. Ele ainda não supõe, mas seu destino é libertar-nos de vez. Até lá, cada mecha deverá realizar seus objetivos.

                  Caligaria levanta-se, confiante.

    -Então, eu quero aprender mais. Quero impedir que este mundo mergulhe na devastação do meu.
    -Enfim, Caligaria renasce de sua tristeza, falava Argumentum.
    -Nunca mais vou chorar ou permitir que alguém o faça. Eu prometo!

                  Maitrec começou a bater palmas.

    -O caminho foi tortuoso, a lição severa. Apesar de tudo, você entendeu. Você, adorável jovem, viveu em um tempo muito conturbado, mas a prova de ser a mais apta a nos ajudar, é a de estar aqui, falava Maitrec.
    -Parabéns, acabou de aceitar seu objetivo e, agora, está preparada para concluir o mesmo. Agora passo a contar uma história mais antiga, um passado remoto. Este passado é o mesmo que você esqueceu.
    -Antes de mais nada: existe como parar este horror?
    -Existe! Escute...

                  Argumentum volta sua atenção para sua ampulheta.

    -Bem antes de Maximillian, existiu um valoroso mecha cujo nome era Ormacimus.
    -Conheço este nome!
    -Sim! De certa forma, ele é o criador de Maximillian.
    -Verdade! Arman já havia mencionado esse nome.
    -Mas ele não contou o outro nome!
    -Outro nome?

                  Neste momento, Maitrec se afasta e Argumentum demonstra um ar muito sombrio: sua ampulheta muda as cores, tornando-se mais escurecida.

    -Sim... outro nome... um nome há muito esquecido... mas um nome presente para todos os mechas... seu nome... o nome que jamais esquecerei, não importa o que me aconteça: estou falando de Considerare, o último dos três pilares a desaparecer deste planeta. Considerare tem a chave para encontrarmos o terceiro pilar, caso ele ainda exista.
    -Hum...
    -Existem três pilares: três sistemas regentes deste nosso mundo. Nossa esperança está em encontrarmos os outros dois, antes do último tempo.
    -Por que antes do último tempo?
    -Nesse momento, para nós, a guerra irá terminar. Como no passado, o nosso dever é procurar, o mais arduamente, o terceiro sistema e, assim mudar, o destino de todos. Maximillian sempre sentiu necessidade de encontrar algo, a busca sempre foi nossa: os regentes deste mundo.
    -Certo! E o outro... o terceiro regente...?
    -Infelizmente não temos mais tempo para conversar.

                  Naquela mesma ampulheta, Caligaria vê Mechapolis sendo atacada por hordas de War Robots.

    -War Robots! Dr. 59 ainda existe!
    -Seus amigos sofrem neste momento.
    -Mas você havia dito que estava tudo bem!
    -Eu menti! Perdoe-me! Caso contasse, você não me ouviria. Agora vejo que não posso mais prender-te nesta dimensão. Também tenho um pedido a fazer.

                  Argumentum mostrou em sua ampulheta, o grande mechalion debatendo-se em uma jaula de energia pura.

    -Orm?!
    -Sim, o meu mensageiro agora é tido como um simples traidor, ajude-o, eu te imploro... o jovem Maximillian cometeu um grande erro...
    -Certo! Antes de ir: obrigada por estes momentos que passei com você, foram muito reveladores. Mas sinto haver algo estranho entre nós duas.
    -É óbvio. Somos mais do que membros da mesma raça... somos mãe e filha!

                  Caligaria fica estarrecida. Parou, olhando fixamente para Argumentum.

    -Então... obrigada, mais uma vez!

                  Virando-se, Argumentum abre um grande portal, ligando ambas as dimensões.

    -Um dia, quem sabe, quando o tempo for mais tranqüilo, poderemos conversar como mãe e... filha, falava Caligaria.
    -Estarei sempre esperando esse dia. Avise ao jovem fundador a quem devem procurar. E, por favor, cuide-se!

                  Ao terminar de ouvir aquelas palavras, Caligaria partiu correndo em direção aquele portal e saltou. Despencando entre as dimensões, a jovem Caligaria enxuga seu rosto e começa a enxergar o final daquele... indefinível.

    -Agora, ela sabe um pouco mais de si mesma e, também, conhece o terrível destino do nosso mundo, disse Maitrec.
    -Sim, Maitrec! Tens razão. A jovem Caligaria, quando chegou, era uma mecha perdida mas, agora, não é mais.
    -Deposito minhas esperanças no encontro com Considerare, falava Maitrec.

                  Mechapolis

                  Toda Mechapolis encontra-se em alerta. A destruição por seus arredores é considerável. Sitiada, há três longos dias, por ondas maciças de War Robots, não haveria maneira de escapar. Maximillian jamais pensou que tal dia fosse chegar, jamais acreditou no fim de Dr. 59 mas não imaginou que a retaliação fosse chegar aquele nível.

                  Dankhan mantém suas incansáveis tropas nos portões norte, onde o combate é intenso. King Merejo tentou enviar, diversas vezes, tropas de spy bots mas não conseguiu sair do oceano, o mar estava enfurecido demais.

    -Maximillian! Nossas forças estão acabando!
    -Eu sei, Ed. Precisamos suportar por mais algum tempo.
    -Repense a condição de Orm: seja mais flexível!
    -Não, Arman! O mechalion continuará preso, ele é um traidor de nossa Mechapolis,não posso permitir um traidor em campo de batalha.
    -Eis a razão de nossa derrota, sua teimosia!
    -Que seja com honra, ao menos...
    -Se tivéssemos Caligaria conosco... pensava Ed.

                  Maximillian mantém seu silêncio, ele não aceita a traição de Orm e a perda de Caligaria, que tem sido uma ferida em sua memória. Isso o faz manter Orm a ferros, numa prisão. Enquanto isso, Orm continua lutando contra aquele campo de força que o prende, tornando-o mais agitado, intimidando os
guardas.

                  Deserto, ruínas

                  Longe dali, dentre ruínas esquecidas, soterrado por pensamentos, um feixe de energia brota de seu interior, deturpado, lançando-se dali aos céus com imensas asas, prateadas pelo reflexo do luar.

                  Caligaria, ao abrir os olhos, vê um espetacular clarão vinda da cidade; então, seu scanner indica focos de batalha não longe dali. Mechapolis está mesmo em crise.

                  Centro de Comando

    -Vamos perder, falava Arman apoiando-se, sobre a mesa.
    -Tenha paciência, Arman! A guerra só esta perdida quando o espírito da vitória nos abandona e, ainda, não me abati, disse Maximillian, olhando com atenção os combates.
    -De onde você tira tanta confiança???
    -Do tempo, Conselheiro!

                  Maximillian caminha até uma das janelas e olha para o céu.

    -Senhor! Temos algo não identificado em nossas telas!
    -Viu só? A vitória jamais falha, Arman.

                  Uma voz acalma todos os presentes.

    -Mechapolis? Esta me ouvindo?
    -Caligaria?
    -Yeah, estou chegando!!
    -Uhuuuuuuuuuuuuuuu, agora sim! Ed pulava em sua cadeira.
    -Maximillian! Solte Orm! Ele não é um traidor! Nós precisaremos dele!
    -Finalmente!!! Arman sentava suspirando, aliviado.
    -Obrigado, Caligaria! Guardas! Soltem-no!

                  As ordens do jovem fundador chegam como uma bomba às masmorras. O grande campo de energia é desativado e as portas se abrem. A fúria, enfim, liberta-se e ganha as ruas.

    -Agora, sim! Vamos vencer! Caligaria e Dankhan preparem-se! Seremos mais do que incisivos!!
    -Certo, Orm!
    -Ok, Orm!

                  Enquanto Orm vencia a distância, Caligaria, de muito longe, vinha voando como um furacão. O som da batalha já se amplificava para seus sentidos.

                  A qualquer momento, ela os alcançaria. Dankhan permaneceu todo o tempo naquele combate, ele tinha compreensão sobre sua importância para toda Mechapolis e, agora que Orm tinha ganhado sua liberdade, sua esperança de vitória foi renovada. Aquele tortuoso campo de batalha, ganhava uma outra
perspectiva. Em sua mente, uma estratégia ele construía, a ponto de começar a rir e intimidar até mesmo suas tropas.

                  Caligaria, ao avistar o combate, acionou seu sistema de ataque, assustando a imensa tropa de War Robots. Ao longe, a fera mostrava suas garras, saltando e se posicionando. Do alto da muralha, ele espreitava seus inimigos.

    -HeHeHeHe! Sempre é bom vê-lo nestas horas, Orm! Falava Dankhan.
    -HaHaHaHaHaHaHaHa! Eu estava perdendo toda esta farra? Impossível!

                  Focando sua atenção, o grande mechalion energizava seu sistema e um poderoso disparo desferia, aniquilando grande parte dos War Robots. Fazendo até mesmo a jovem Caligaria se desviar.

    -Ôpa! HeHeHeHe! Desculpe...
    -Ainda estou do seu lado! Aponte isso para eles!!

                  Orm agora mudava de formação e saltava em direção ao centro do combate, que seria mais individualizado. Simultaneamente, Caligaria pensava sobre a sua construção, exclusiva para ser máquina de guerra. Assim sendo, ela iria usar suas habilidades para algo que julgava ser o certo e, com estes novos pensamentos, abatia todos aqueles War Robots, usando suas mortais garras.

                  Dankhan não acreditava no que via... algo acontecera com sua irmã de batalhas... do alto da muralha, observou todo o combate ser redesenhado e, desta forma, enviou tropas para marcharem sobre os destroços de seus inimigos. King Merejo, finalmente, estabelecia contato.

    -Mechapolis?!?!
    -Merejo!
    -Suportem mais um pouco, a cavalaria está chegando!
    -Certo, obrigado!
    -Maximillian, agora tudo melhorou!
    -Não seja tão crédulo Arman, Dr. 59 não iria brotar da terra desta forma para, novamente, ser derrotado. Máxima atenção! Sinto algo em meu sistema...! Algo me assusta...!

                  Não só o jovem fundador mas, também Caligaria, sentia ser observada. Ela procurava por um alvo mas, envolta em tantos acontecimentos, não tinha total acuidade. Orm estava concentrado demais para ajudá-la. E Dankhan... hum... continuava ali, parado, apenas orientando os passos de todos.

                  Saltando e ganhando o céu, Caligaria usava a claridade do dia, para buscar uma resposta. Concluiu que aqueles War Robots não estavam lutando para destruir algo e, sim, figuravam apenas como engôdo. Mesmo sem tanta experiência com aquele tipo de guerra, algo a forçava a acreditar
que tudo aquilo, na verdade, era uma distração. Ao atingir uma certa distância e emparelhar com as muralhas, ela enxergou tudo mais calmo: os últimos War Robots agora recuavam.

    -Acabou!! Caligaria? Orm? Retornem!! Vencemos mais uma vez!

                  Do alto da muralha, Dankhan mostrava sua alegria e também seu alívio. Mesmo mantendo o seu lado indiferente, ele sentiu o rigor da batalha e, caso seus amigos não viessem, Mechapolis poderia ter mesmo um fim. Mas tudo terminou bem, a seu ver.

                  Caligaria e Orm aproximavam-se de Mechapolis escoltados pelos guardas quando, finalmente, o terror foi liberado. Ambos sentiram uma força se aproximando. Caligaria tentou virar-se mas não conseguiu ver e nem mesmo Orm pode deter aquilo.

    -Tenham cuidado! Seja lá o que for é realmente rápido!!!!

                  Ed gritava pelo comunicador e pouco pôde mudar o fato seguinte: Dankhan, atingido, despencava do alto da muralha, em queda livre até o solo.

    -Dankhan!! Guardas vão na frente! Eu e Orm vamos ficar!!
    -Sim! Senhora!

                  A escolta passou e os dois mais poderosos mechas agora, estavam entre Mechapolis e qualquer coisa a sua frente.

    -Não consigo ver qualquer sinal, Orm!
    -Não cheiro absolutamente nada, Caligaria!
    -Seja lá o que for, está com um grande problema!
    -Atenção redobrada! Voltem! Falava Maximillian.
    -Vamos esperar que tragam Dankhan. Depois entramos!
    -Entendido!
    -Ed?
    -Prossiga.
    -Ainda existe algo em seu sistema?
    -Não mais. Sumiu. Da mesma forma que apareceu, desapareceu em seguida.
    -Como está Dankhan?
    -Sem resposta. Perfurou sua blindagem!
    -Orm! Caligaria! Retornem agora! vamos fechar os portões!
    -Sim, Maximillian!

                  Atentos, os protetores de Mechapolis recuavam passo a passo, sem dar as costas um minuto. E, assim, eles adentraram e os portões foram lacrados. Caligaria, ao virar-se, viu Dankhan sendo colocado em um dos transportes. Em seu peitoral, havia um grande rombo. Orm se aproximava de
Dankhan.

    -Vamos lá, garoto. Já passou por piores...
    -HeHeHeHe! Deixe de drama... logo eu volto...
    -Dankhan! Desculpe-me, nada pude fazer!

                  Dankhan estende sua mão para Caligaria.

    -Que tal cuidar de mim, hein?
    -Melhor levá-lo, ele realmente não está bem. Além de tudo, bateu a cabeça.

                  E assim o transporte foi fechado e seguiu.

    -Por que nele? E não em nós? Indagava Orm.
    -Concordo, preferiria estar em seu lugar.
    -Caligaria! Orm!

                  Maximillian vem galopando pelas vastas ruas.

    -Tudo bem com você Caligaria?
    -Comigo, sim.
    -E eu? Não quer nem saber como eu estou?
    -Você sempre está bem, jamais me preocupo. A propósito, preciso de muitos relatórios. Orm verifique como estão as tropas e se há algum dano de maior importância em nossas muralhas.
    -Sempre o trabalho mais chato fica por minha conta.
    -Eu o ajudo, Orm. Falava Caligaria.

                  Orm saiu resmungando. Maximillian, de longe, diz que o está ouvindo. Orm faz uma careta para Maximillian.

    -Tenha compostura, Orm!
    -Fique você sabendo que tenho idade suficiente para desaforá-lo.
    -Vocês são uma lástima! Dankhan todo arrebentado e vocês por aí, brigando como duas crianças!

                  Duas horas mais tarde: Laboratório 16

    -Informe, Arman! Pediu Maximillian.
    -O traje realmente não suportou.
    -Isso eu sei. Quais as condições?
    -Muito da estrutura foi dilacerado, mas algo me incomoda.
    -O que?
    -Veja.

                  Arman mostra as análises do corpo de Dankhan.

    -Foi muito preciso, atingiu um dos pontos mais vulneráveis da couraça de Dankhan.
    -Concordo. Então, não foi um tiro à distância.
    -Não. Algo chegou perto o suficiente e mirou neste ponto!
    -Se me permitem falar...
    -À vontade, Ed.
    -Dankhan sempre teve uma estrutura muito resistente. Calculando a força do impacto e dividindo pela possível distância baseado no ângulo de ataque, sua couraça não deveria ter rompido.
    -Fadiga do material?
    -Não, Fundador. Ele confeccionou este traje, há pouco tempo...
    -Você foi um dos mentores do corpo de Dankhan, não foi Ed?
    -De certo modo, sim. Quando nos conhecemos, ele ainda estava desenvolvendo suas idéias.
    -Compreendo... você que transplantou a memória de um corpo para o outro. Estou correto?
    -Sim, jovem fundador. Dankhan me explicou muito sobre a construção de seus corpos e de sua estrutura de dados.
    -Só posso concluir que algo chegou perto, muito perto, para destruir sua blindagem assim.
    -Concordo, Maximillian. Ed balançava sua pequenina cabeça.
    -Mesmo assim é insano. Como alguém conseguiu chegar tão perto...? Caligaria e Orm também estavam ali, eles teriam visto!

                  Maximillian agora caminha em direção ao inerte Dankhan e olha fixamente seus reparos. Neste momento Dankhan desperta.

    -Maximillian?
    -Dankhan?

                  Ambos se assustam.

    -Anotaram a chapa?
    -Sem piadas. Como vai o mundo aí dentro?
    -Deixe-me ver... dois mais dois ainda são quatro... para mim e isso é racional...
    -Perfeito! Arman, solte as travas!

                  Maximillian mostrou seu lado frio e deixou logo o lab 16. No corredor, encontrou Caligaria e Orm mas não parou. Dankhan, agora liberado de suas travas, podia andar e ver como seu sistema reagia.

    -Dankhan!
    -Orm! Caligaria! Bom vê-los!
    -O que aconteceu com Maximillian? Vocês brigaram de novo?
    -Desta vez, creio que não. Deixe isso de lado.
    -De lado nada, ainda há pouco ele estava muito preocupado com você Dankhan mas, de repente, ficou frio como um iceberg e saiu de cena!

                  Arman inclinou sua cabeça e encarou Ed, com determinação.

    -Mas... o que foi agora? Temporada de caça aos caramujos...?

                  Nisso, Ed é apanhado por Dankhan que o coloca em seu ombro.

    -Meu papagaio!! Que saudades de você!!
    -Não sou um papagaio! E fica emburrado de braços cruzados.
    -Como não? Sempre falou pelos cotovelos.
    -Realmente, algo de sério acontece em nosso quintal. Devemos ter mas cuidado. Pode ser que volte.

                  Todos ficam sérios e compenetrados naquelas palavras do mechalion. Dankhan senta-se numa cama, ali por perto.

    -Algo de errado?
    -Não, Ed. Mantenho-me sempre firme, para tentar não preocupar mais ninguém, nem mesmo Maximillian mas, hoje, eu não estou nada legal.
    -Gostaria de voltar ao seu Hangar?
    -Sim. Obrigado, Orm!

                  Levantando com a ajuda de Caligaria e Arman, Dankhan cambaleava.

    -Temos um transporte parado aí fora.
    -Não será necessário, Arman. Consigo andar.
    -Vai forçar o sistema.
    -Ainda posso andar!

                  E, assim, Dankhan saiu do lab 16, sendo praticamente carregado por Caligaria. Mas Ed foi em seu ombro. Ao saírem dali, Dankhan respirou mais aliviado.

    -Tenho horror destes laboratórios.
    -Eu também não gosto, concordava Caligaria.
    -Caligaria, posso perguntar uma coisa?
    -Claro, Ed.
    -Aonde esteve?
    -Cara... realmente essa é uma história bem longa, mesmo. Eu tenho tantas coisas para contar... mas não quero ficar repetindo igual a um papagaio...
    -Realmente, não gostei nada deste trocadilho!
    -HaHaHaHa!! Obrigado por vocês dois existirem. Só assim, para o meu dia não afundar de vez.

                  Continuaram andando pelas ruas de Mechapolis, os minutos passavam e Dankhan deixava mais o corpo pesar. Caligaria praticamente carregou-o durante boa parte do percurso. Ao chegarem, ela o soltou em sua cama.

    -Obrigado, Caligaria!
    -Não por isso. Agora, por favor, descanse!

                  Dankhan novamente segurou uma das mãos de Caligaria.

    -Seria pedir demais sua presença?
    -Ele estava com saudades de você, Caligaria, falava Ed.

                  Caligaria o olhou com seriedade e lentamente puxou uma cadeira. Sentou-se ao lado da cama, cruzou as pernas, apoiou o cotovelo em seu joelho e o queixo em sua mão.

    -Talvez não, Dankhan.