Mechapolis Capítulo X : Caminhos distantes, caminhos ocultos, sempre caminhos Com o passar dos últimos momentos, tudo enfim recebia uma definição mais compreensível e Caligaria continuava ali, estarrecida. Pouco a pouco, com a exata paciência do próprio tempo, Argumentum despertava diante de ambos, com palavras apaziguadoras. -Obrigada, a você também, meu leal guardião; por ter vigiado o meu
terrível sono, durante os últimos séculos. Argumentum volta sua atenção para Caligaria a quem, há pouco, chamou de filha. -Algo de errado comigo? Sem fazer restrições, Caligaria senta-se no piso e fixa sua atenção em Argumentum. -Ora... ora... mil desculpas por não termos um lugar melhor para
conversarmos... Maitrec também senta no piso. -Argumentum, tenho algo a contar. Argumentum, voltou sua atenção para sua ampulheta e, ali, começou a mostrar algumas imagens. -No mais remoto tempo, na maior distância entre o passado e o nosso
presente, houve uma outra raça, que se tornou totalmente cega com o poder
de sua tecnologia. Esquecendo seus propósitos e o respeito, uma guerra
brotou entre aqueles irmãos e, por esse motivo, nós, os mechas, fomos
criados. Naquele mesmo vidro aparecia Mechapolis adormecida, a noite acolhia seus pensamentos. -Tem mais paz agora? Argumentum enrola-se um pouco mais em sua ampulheta e mostra uma grande serenidade. -Em meus registros, fui ativada para ser uma simples operária, num mundo
com outros mechas. Com o avanço daquela tecnologia, nós, a minha linha de
mechas ficou defasada e, assim, fomos deixadas de lado. Caligaria fechou os olhos e imagens brotaram em sua mente. O céu estava azul e a grama ainda era verde; um dia de brisa leve, calmaria. Sentada no alto daquele morro, contemplava a esplêndida cidade logo abaixo quando algo fez todo o planeta tremer: o céu se turvou pois descia uma imensa armada. Caligaria abre os olhos e cai. -Meu sonho não mentiu! Por que tenho medo de continuar vendo? Mesmo estando de olhos abertos, Caligaria continuou a enxergar o seu mundo afundar num caos: todas as suas irmãs iniciaram um golpe fatal naquele povo. Sua raça inteira era dizimada e seus grandes triunfos, apagados. Caligaria negou-se a acreditar em tudo durante muito tempo. Quando a guerra terminou, ela foi recapturada, consertada e novamente armazenada, para um dia servir aos seus donos novamente. -Pare! Por favor, pare! Não consigo suportar mais. Este fardo é
terrível: ajudeia destruir quem eu mais amei!!!!! Argumentum aproxima-se e estende sua mão para Caligaria. Em resposta, ela golpeia aquela mão estendida. -Se você sabia, por que não me ajudou? Onde estava? Por que eu???? Argumentum retorna a sua ampulheta e se mostra muito triste. -Da mesma forma, que você foi criada para ser uma máquina de guerra,
nós todos deste planeta, de algum modo, compartilhamos o mesmo destino. Caligaria levanta-se, confiante. -Então, eu quero aprender mais. Quero impedir que este mundo mergulhe na
devastação do meu. Maitrec começou a bater palmas. -O caminho foi tortuoso, a lição severa. Apesar de tudo, você entendeu.
Você, adorável jovem, viveu em um tempo muito conturbado, mas a prova de ser
a mais apta a nos ajudar, é a de estar aqui, falava Maitrec. Argumentum volta sua atenção para sua ampulheta. -Bem antes de Maximillian, existiu um valoroso mecha cujo nome era
Ormacimus. Neste momento, Maitrec se afasta e Argumentum demonstra um ar muito sombrio: sua ampulheta muda as cores, tornando-se mais escurecida. -Sim... outro nome... um nome há muito esquecido... mas um nome presente
para todos os mechas... seu nome... o nome que jamais esquecerei, não importa
o que me aconteça: estou falando de Considerare, o último dos três pilares a
desaparecer deste planeta. Considerare tem a chave para encontrarmos o terceiro
pilar, caso ele ainda exista. Naquela mesma ampulheta, Caligaria vê Mechapolis sendo atacada por hordas de War Robots. -War Robots! Dr. 59 ainda existe! Argumentum mostrou em sua ampulheta, o grande mechalion debatendo-se em uma jaula de energia pura. -Orm?! Caligaria fica estarrecida. Parou, olhando fixamente para Argumentum. -Então... obrigada, mais uma vez! Virando-se, Argumentum abre um grande portal, ligando ambas as dimensões. -Um dia, quem sabe, quando o tempo for mais tranqüilo, poderemos
conversar como mãe e... filha, falava Caligaria. Ao terminar de ouvir aquelas palavras, Caligaria partiu correndo em direção aquele portal e saltou. Despencando entre as dimensões, a jovem Caligaria enxuga seu rosto e começa a enxergar o final daquele... indefinível. -Agora, ela sabe um pouco mais de si mesma e, também, conhece o terrível
destino do nosso mundo, disse Maitrec. Mechapolis Toda Mechapolis encontra-se em alerta. A destruição por seus arredores é considerável. Sitiada, há três longos dias, por ondas maciças de War Robots, não haveria maneira de escapar. Maximillian jamais pensou que tal dia fosse chegar, jamais acreditou no fim de Dr. 59 mas não imaginou que a retaliação fosse chegar aquele nível. Dankhan mantém suas incansáveis tropas nos portões norte, onde o combate é intenso. King Merejo tentou enviar, diversas vezes, tropas de spy bots mas não conseguiu sair do oceano, o mar estava enfurecido demais. -Maximillian! Nossas forças estão acabando! Maximillian mantém seu silêncio, ele não aceita a traição de Orm e
a perda de Caligaria, que tem sido uma ferida em sua memória. Isso o faz
manter Orm a ferros, numa prisão. Enquanto isso, Orm continua lutando contra
aquele campo de força que o prende, tornando-o mais agitado, intimidando os Deserto, ruínas Longe dali, dentre ruínas esquecidas, soterrado por pensamentos, um feixe de energia brota de seu interior, deturpado, lançando-se dali aos céus com imensas asas, prateadas pelo reflexo do luar. Caligaria, ao abrir os olhos, vê um espetacular clarão vinda da cidade; então, seu scanner indica focos de batalha não longe dali. Mechapolis está mesmo em crise. Centro de Comando -Vamos perder, falava Arman apoiando-se, sobre a mesa. Maximillian caminha até uma das janelas e olha para o céu. -Senhor! Temos algo não identificado em nossas telas! Uma voz acalma todos os presentes. -Mechapolis? Esta me ouvindo? As ordens do jovem fundador chegam como uma bomba às masmorras. O grande campo de energia é desativado e as portas se abrem. A fúria, enfim, liberta-se e ganha as ruas. -Agora, sim! Vamos vencer! Caligaria e Dankhan preparem-se! Seremos mais
do que incisivos!! Enquanto Orm vencia a distância, Caligaria, de muito longe, vinha voando como um furacão. O som da batalha já se amplificava para seus sentidos. A qualquer momento, ela os alcançaria. Dankhan permaneceu todo o
tempo naquele combate, ele tinha compreensão sobre sua importância para
toda Mechapolis e, agora que Orm tinha ganhado sua liberdade, sua esperança
de vitória foi renovada. Aquele tortuoso campo de batalha, ganhava uma outra Caligaria, ao avistar o combate, acionou seu sistema de ataque, assustando a imensa tropa de War Robots. Ao longe, a fera mostrava suas garras, saltando e se posicionando. Do alto da muralha, ele espreitava seus inimigos. -HeHeHeHe! Sempre é bom vê-lo nestas horas, Orm! Falava Dankhan. Focando sua atenção, o grande mechalion energizava seu sistema e um poderoso disparo desferia, aniquilando grande parte dos War Robots. Fazendo até mesmo a jovem Caligaria se desviar. -Ôpa! HeHeHeHe! Desculpe... Orm agora mudava de formação e saltava em direção ao centro do combate, que seria mais individualizado. Simultaneamente, Caligaria pensava sobre a sua construção, exclusiva para ser máquina de guerra. Assim sendo, ela iria usar suas habilidades para algo que julgava ser o certo e, com estes novos pensamentos, abatia todos aqueles War Robots, usando suas mortais garras. Dankhan não acreditava no que via... algo acontecera com sua irmã de batalhas... do alto da muralha, observou todo o combate ser redesenhado e, desta forma, enviou tropas para marcharem sobre os destroços de seus inimigos. King Merejo, finalmente, estabelecia contato. -Mechapolis?!?! Não só o jovem fundador mas, também Caligaria, sentia ser observada. Ela procurava por um alvo mas, envolta em tantos acontecimentos, não tinha total acuidade. Orm estava concentrado demais para ajudá-la. E Dankhan... hum... continuava ali, parado, apenas orientando os passos de todos. Saltando e ganhando o céu, Caligaria usava a claridade do dia,
para buscar uma resposta. Concluiu que aqueles War Robots não estavam
lutando para destruir algo e, sim, figuravam apenas como engôdo. Mesmo
sem tanta experiência com aquele tipo de guerra, algo a forçava a acreditar -Acabou!! Caligaria? Orm? Retornem!! Vencemos mais uma vez! Do alto da muralha, Dankhan mostrava sua alegria e também seu alívio. Mesmo mantendo o seu lado indiferente, ele sentiu o rigor da batalha e, caso seus amigos não viessem, Mechapolis poderia ter mesmo um fim. Mas tudo terminou bem, a seu ver. Caligaria e Orm aproximavam-se de Mechapolis escoltados pelos guardas quando, finalmente, o terror foi liberado. Ambos sentiram uma força se aproximando. Caligaria tentou virar-se mas não conseguiu ver e nem mesmo Orm pode deter aquilo. -Tenham cuidado! Seja lá o que for é realmente rápido!!!! Ed gritava pelo comunicador e pouco pôde mudar o fato seguinte: Dankhan, atingido, despencava do alto da muralha, em queda livre até o solo. -Dankhan!! Guardas vão na frente! Eu e Orm vamos ficar!! A escolta passou e os dois mais poderosos mechas agora, estavam entre Mechapolis e qualquer coisa a sua frente. -Não consigo ver qualquer sinal, Orm! Atentos, os protetores de Mechapolis recuavam passo a passo, sem
dar as costas um minuto. E, assim, eles adentraram e os portões foram
lacrados. Caligaria, ao virar-se, viu Dankhan sendo colocado em um dos
transportes. Em seu peitoral, havia um grande rombo. Orm se aproximava de -Vamos lá, garoto. Já passou por piores... Dankhan estende sua mão para Caligaria. -Que tal cuidar de mim, hein? E assim o transporte foi fechado e seguiu. -Por que nele? E não em nós? Indagava Orm. Maximillian vem galopando pelas vastas ruas. -Tudo bem com você Caligaria? Orm saiu resmungando. Maximillian, de longe, diz que o está ouvindo. Orm faz uma careta para Maximillian. -Tenha compostura, Orm! Duas horas mais tarde: Laboratório 16 -Informe, Arman! Pediu Maximillian. Arman mostra as análises do corpo de Dankhan. -Foi muito preciso, atingiu um dos pontos mais vulneráveis da couraça de
Dankhan. Maximillian agora caminha em direção ao inerte Dankhan e olha fixamente seus reparos. Neste momento Dankhan desperta. -Maximillian? Ambos se assustam. -Anotaram a chapa? Maximillian mostrou seu lado frio e deixou logo o lab 16. No corredor, encontrou Caligaria e Orm mas não parou. Dankhan, agora liberado de suas travas, podia andar e ver como seu sistema reagia. -Dankhan! Arman inclinou sua cabeça e encarou Ed, com determinação. -Mas... o que foi agora? Temporada de caça aos caramujos...? Nisso, Ed é apanhado por Dankhan que o coloca em seu ombro. -Meu papagaio!! Que saudades de você!! Todos ficam sérios e compenetrados naquelas palavras do mechalion. Dankhan senta-se numa cama, ali por perto. -Algo de errado? Levantando com a ajuda de Caligaria e Arman, Dankhan cambaleava. -Temos um transporte parado aí fora. E, assim, Dankhan saiu do lab 16, sendo praticamente carregado por Caligaria. Mas Ed foi em seu ombro. Ao saírem dali, Dankhan respirou mais aliviado. -Tenho horror destes laboratórios. Continuaram andando pelas ruas de Mechapolis, os minutos passavam e Dankhan deixava mais o corpo pesar. Caligaria praticamente carregou-o durante boa parte do percurso. Ao chegarem, ela o soltou em sua cama. -Obrigado, Caligaria! Dankhan novamente segurou uma das mãos de Caligaria. -Seria pedir demais sua presença? Caligaria o olhou com seriedade e lentamente puxou uma cadeira. Sentou-se ao lado da cama, cruzou as pernas, apoiou o cotovelo em seu joelho e o queixo em sua mão. -Talvez não, Dankhan. |
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