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Mechapolis
8 de Dezembro de 2004
By Lord Eternal

                  Capítulo IX : Portas seladas

                  Debatendo-se entre o real e o absurdo, Caligaria se esforçava para manter o controle de sua consciência, tentando compreender o que se passava a seu redor. Mesmo assim,de forma assustadora, sentia-se perdida. Lutando para acionar seu sistema de vôo e sem conseguir, só restava a ela despencar
naquele redemoinho de aparentes loucuras até ser parada de maneira abrupta, o que a fez perder os sentidos.

                  Centro de Comando

                  Vendo a tarde terminar, Arman começava a andar de um lado para o outro. A todo momento olhando na direção de seus painéis de busca: nada era captado; o transporte ainda não era avistado.

    -Senhor? Posso sugerir uma equipe de busca?
    -Ainda não. Vamos com calma.
    -Quase seis horas já se passaram.
    -Eu sei. Ainda assim, é cedo.
    -Posso ajudar em algo?
    -Definitivamente, sim! Fique calado, guarda!
    -Sim, Senhor.

                  Nesse momento, num ponto distante, o transporte retornava de maneira veloz, isso alertou Arman. Prontamente tentou contato: recebeu a informação sobre o transporte estar em modo automático. Isso o preocupou muito. Nem Maximillian, Orm ou Dankhan respondiam. Também não avistou Caligaria voando. Rapidamente enviou um pelotão para esperar naquela entrada.

                  Portões do leste

                  Amon e Ed encontravam-se naquele portão desde a hora da partida nenhum dos dois quis deixar seu posto.

    -Quanta pressa!
    -Aconteceu algo, Ed?
    -Realmente não sei. De ante mão já aviso: não vejo Caligaria ou Dankhan, apenas Maximillian e um pedaço de Orm.
    -Rápido!! Está parando!

                  Ao chegar, os dois amigos encontram Dankhan desmaiado nas costas de Maximillian.

    -Tenha cuidado com ele! Leve-o, rápido! Guardas! Prendam o mechalion Orm!

                  Todas as cabeças volveram para Maximillian. Todos pasmos com aquela ordem.

    -Maximillian, que aconteceu? Onde está a jovem Caligaria?
    -Meu caro Ed, tenho um relato muito estranho. Avise Arman. Precisamos analisar Dankhan, antes de mais nada.

                  Virando-se na direção do mechalion Orm:

    -Desculpe-me por tudo isso, Orm. Realmente é necessário. Levem-no para o confinamento.
    -Em seu lugar, faria o mesmo, jovem fundador! Aceito esta minha prisão.

                  Orm foi escoltado por vários guardas. Dankhan era carregado por outros. Amon e Ed o acompanhavam. Ao fundo, Arman vinha correndo.

    -Maximillian!!! Maximillian!!
    -Calma, Arman! O pior acredito ter passado.
    -Que pior? Orm está preso?
    -Sim. vamos entrar. Preciso me recuperar de tudo.

                  Assim, os portões são fechados e travados. Mechapolis cala-se perante tantas perguntas. Arman continua aflito, enquanto Dankhan esta desacordado. Ed e Amon são apenas espectadores de tudo enquanto Maximillian pede para descansar em seus aposentos.

                  Algum lugar

                  Com a cabeça pesada e a vista deturpada, Caligaria começava a enxergar o que a rodeava, sem nada compreender. Chega a pensar que, realmente, enlouqueceu. Nada parecia ter nexo: Curvas... cores... pensamentos... tudo conseguia observar e tão pouco, entender. Apos alguns momentos, enfim, algo tomou uma forma menos abstrata: era uma porta dupla. Precisava ficar em pé. Sua estrutura estava
estremecendo e seu sistema pouco obedecia. Era uma situação angustiante. Buscando forças, ela tentou esquecer tudo a sua volta: ficou em pé novamente.

    -Vamos ver: braços - pernas - cabeça. É... ainda existo... só não sei... onde!

                  Estendendo os braços, tocou naquela porta.

    -Hum... parece ser real. (Acionando sistema de ataque)

                  Nada acontecia, nenhum de seus armamentos funcionava.

    -Começou a complicar! Vai ter de ser no braço!

                  Tentou empurrar, mas pesava muito e, sem qualquer tipo de calço, ela começou a esmurrar na tentativa de abrir. Depois de algum tempo tentando, desistiu.

    -Legal, presa neste pesadelo absurdo. Maximillian!!! Dankhan!! Orm!!

                  Ninguém respondia, nem mesmo eco fazia.

    -Sem comunicação, sem ninguém, sem nada, ou melhor, aqui está bem lotado: de loucuras, mas está. Olhar para cima é igual olhar para baixo, lado duvido que tenha, só mesmo esta velha porta emperrada como marco! Estou frita!
    -Vai Desistir?
    -Quem está aqui? Indagou Caligaria.
    -Vai desistir?
    -Desistir do que?
    -Vai desistir?
    -Certo, certo, sem diálogo e agora com um disco enroscado.
    -Vai desistir?
    -Não, não vou desistir, porque eu realmente não vou passar o resto de minhas baterias aqui.
    -Então, lute!

                  Caligaria apoiou de vez seu corpo naquela porta e começou a empurrar, usando toda a sua energia e ouvindo a mesma pergunta. A porta começou a ceder o que a levou a empurrar com mais força ainda. A porta se abriu e ela tombou do outro lado. Quando levantou, enxergou um imenso hall de colunas de pedra, chão de terra. Ao fundo, paredes sem janelas. Mas, estranhamente, havia claridade
dentro do hall. Então, ela entrou e deu alguns passos... as portas se fecharam subitamente...

                  Olhando para frente, viu um ser imóvel, diante de outra gigantesca porta. Era estranho estar bem ali porque, em sua mente, de alguma forma, tinha uma nítida certeza de conhecê-lo. Mas não sabia de onde. Foi quando compreendeu que todo aquele local também lhe era familiar. Isso a fez temer por sua segurança o que a levou a voltar na direção da porta por onde entrara, esmurrando-a ferozmente. Mas a porta nem se abalou.

                  Sem alternativas, Caligaria começou a andar pelo lugar, aproximando-se daquele inerte ser. Ela o olhava, analisando-o: seu corpo não era muito simétrico mas mostrava-se, claramente, ser um mecha, com pernas curtas e grandes botas, de mãos alargadas e braços pequenos. Ele a deixava com vontade de rir mas, mesmo assim, continuou séria. Deixando de lado aquele ser, caminhou até outra porta.

                  Estava trancada. Tentou empurrar mas de nada adiantou. Sem chance alguma, só restou voltar até a porta por onde tinha entrado e sentar-se no chão.

    -Da frigideira, para a fogueira. Ei! Psiu! Você mesmo! Não fala nada? HaHaHa, caso você fosse real, poderia me contar onde estou, mas somente é uma estátua de pedra, feia e velha.

                  Então a estátua girou a cabeça e olhou para Caligaria.

    -Somos o que realmente queremos ser e você sabe o que realmente é?

                  Caligaria levantou-se, rapidamente.

    -Sim sei, mas você fala mesmo?
    -Quanta surpresa! Sim, eu falo e muito bem, diga-se de passagem.
    -Desde a hora que cheguei, você nada falou.
    -Você também não perguntou!
    -E verdade. Onde estamos?
    -Em qualquer lugar, dentro de um lugar para onde ninguém vem, tampouco alguém sai. Um lugar bem longe do conhecido: este é o meu lugar.
    -Certo, isso está localizado em algum mapa?
    -Creio que não.

                  O imenso ser começou a mover-se, sua aparência de pedra mudou e, agora, ganhava uma cor prateada.

    -Desde o tempo mais antigo, até este presente ambicioso, eu a esperei! Enfim, jovem Caligaria, você chegou!
    -Como sabe o meu nome?
    -Sei de muitos outros nomes além do seu. Venha comigo.
    -Onde vamos?
    -Vou reunir a pergunta e a resposta.
    -Tem nome?
    -Quem?
    -O seu.
    -Meu nome? Quer realmente saber o meu nome?
    -Se for possível...
    -Meu nome... um nome dado por alguém torna-se próprio. O meu nome já não é mais dito há muito tempo... um velho nome... mas realmente é um bom nome. O meu nome é Maitrec.
    -Prazer Maitrec, como sabe, sou a Caligaria.

                  Ele virou-se na direção das portas e as abriu com grande facilidade.

    -Venha por aqui.

                  Caligaria percebeu uma profunda escuridão. Ele foi primeiro, sendo seguido de perto por Caligaria. O corredor, agora, era diferente: com entalhes nas paredes e com bordas definidas.

    -Lembrou de seu amigo Ed? Indagou Maitrec.
    -Conhece Ed?
    -Sim, conheço-o também.
    -Acho que Ed gostaria de estar aqui.
    -Talvez um dia você possa trazê-lo.
    -Primeiro, eu tenho de sair.
    -Maximillian!
    -O que tem ele? Perguntou Caligaria.
    -O jovem fundador gostaria de estar em seu lugar. Ele sempre buscou uma resposta e nestas paredes talvez ele a encontrasse.
    -Troco de lugar com ele, de maneira feliz.

                  Andando de forma mais rápida, o tempo fluía e o corredor parecia não ter fim. Impaciente, a jovem prefere ir na frente e, quando estava pegando o embalo, bateu em algo e caiu.

    -Este é o mal da juventude: sempre apressada.
    -Que raiva! Maldita porta!!
    -Portas. É o elemento que mais se vê por aqui.
    -Percebo...
    -Todos os destinos tem suas portas seladas. Somente o dono daquele destino tem o direito de encontrá-las e abrí-las.
    -Você fala demais, amigo.

                  Então, ela se levantou e, novamente, começou a empurrar aquela porta. Desta vez, Caligaria teve cuidado para não cair do outro lado. Uma imensa claridade perpassou. Era impossível divisar o que residia após a porta. Ao abrir mais, aquela luz começou a diminuir até desaparecer; permitindo que o
seu interior fosse revelado.

                  Ao centro, calada, habita uma imensa silhueta, enroscada no tempo, por ora parado e lacrado. Maitrec continuou a caminhar, enquanto Caligaria só conseguia observar e nada mais. A figura a sua frente, hipnotizava seus sentidos. Em sua mente, enfim, retornava para algum lugar há muito esquecido.

    -Finalmente, minha querida amiga, eu a trouxe! Cumpro uma das mais antigas promessas já feitas para ti, aceite-a e retorne para nós...
    -Com quem fala? Perguntou Caligaria.
    -Agora ela permanece calada, mas em breve, não mais estará, por favor Caligaria, aceite sua missão e acorde o inerte tempo.
    -Missão?

                  Maitrec apontou em direção ao centro e, bem ali, abriu uma passagem: surgiu uma escadaria em caracol.

    -Sim, sua missão. Vá, jovem caligaria! Desça e busque! E, por favor, encontre!
    -Tenho alguma outra escolha?
    -Todos sempre têm mais de uma escolha...
    -Certo! Vamos com calma. Explique com detalhes, se for possível: Onde estamos? O que é isto tudo?
    -A moradia do tempo, não apenas o tempo de sua Mechapolis, mas sim todo o tempo, de todos os lugares e seres, o tempo em sua mais perfeita complexidade, possivelmente encontrado.
    -Mas por que eu ainda pergunto isso? Jamais irá falar algo com algum tipo de nexo para mim! Apesar de tudo, você falou algo racional: Mechapolis. Conhece a cidade?
    -Infelizmente, para ti eu não sou a resposta e, sim, apenas o humilde guardião deste lugar. Adianto um fato: caso este ser não seja despertado, você, além de ficar sem suas respostas, estará confinada a este tempo, para sempre.
    -Terei de roubar uma frase de um amigo: " odeio drama ".
    -Dankhan, hum, nada sabe também sobre ele. Somente o que ele deseja aparentar.
    -Chega de pobres argumentos. Ficar para sempre é muito tempo.
    -Antes de ir, devo avisar: ao descer, encontrará outro tempo. Provavelmente, muitas adversidades.
    -Ok, se cuida.

                  Iniciou a descida, levando a imagem daquele ser preso à ampulheta, que não se esvai de sua mente. Lentos passos são desferidos e, pouco a pouco, a escuridão vai engolindo-a outra vez. Do alto, Maitrec observa seu destino.

    -Quem sabe, desta vez, ao menos desta, o destino poderá ser diferente.

                  Caligaria começava a ficar cansada de descer aquela espiral. Checou seu sistema de vôo e recebendo o sinal positivo, prontamente saltou das escadarias.

    -Cair é mais rápido do que descer um a um estes degraus.

                  Somando velocidade à descida, as sombras imediatamente dissiparam-se e um azul configurou-se. Parecia adentrar uma nova biosfera: encontrou um vale de grandes árvores e um céu com nuvens. Também, viu o final da escadaria. Estendendo o braço, conseguiu agarrar o último dos inúmeros degraus e parou sua descida.

    -Legal! Algo racional! Seja bem vinda, Caligaria, ao mundo dos normais! dizia Caligaria para si mesma. Em seguida, ouviu o som de tiros e explosões do seu lado e, quando olhou, ficou pasma.

    -Mas que droga é aquela!

                  Um combate aéreo é travado: de um lado, grandes seres azulados com asas rajadas abatiam outro ser menor, nas cores cinza e amarelo, sem nenhuma piedade.

    -Quer saber? Lutas sem propósito eu até entendo, mas dois contra um, nunca fui a favor.

                  Soltando-se da escadaria, Caligaria retomou seu vôo, de imediato e passou a perseguir os seres. Sem a menor dúvida, ela os atacou. O primeiro não impôs problema algum mas o segundo revidou de maneira mortal e fugiu; deixando o ser menor cair no meio daquela floresta. Caligaria ficou entre
continuar sua perseguição ou ir resgatar aquele pequenino ser.

    -Ao menos alguém, poderá ser salvo hoje.

                  Descendo para a floresta, num ponto fechado, as arvores sendo grandes obstáculos em sua procura porém, mesmo sendo menor do que os outros, aquele ser ainda é bem grande se comparado consigo mesma; ela não demorou para encontrá-lo ali, caído e se debatendo. Ao ver Caligaria entrou em modo de combate. Caligaria compreendeu ser um mecha e, com seu jeito especial, acalmou-o.

    -Calma! Não quero te machucar!
    -Quem é você?
    -Mais um falante nesta história. Eu sou Caligaria e presumo que você também tenha um nome.
    -Sim, sou uma Mechabee.
    -Compreendo e por que a briga?
    -Aquelas eram Mechabutterfly, mas este problema é nosso, pode ir embora, obrigada por afastá-las de mim mas, de agora em diante, é comigo.
    -Você é bem valente para o seu tamanho. Mas, com esta asa assim, duvido que consiga ir muito longe. Que tal se eu te ajudar no conserto enquanto você vai me contando algo?
    -É apenas o meu eixo, nada de mais.
    -Como pode ver, também possuo asas. Sei como é doloroso quando este eixo quebra e também sei como é triste ser abandonada.
    -Quem disse que estou abandonada?
    -Não vejo um outras mechabee com você, aqui.
    -Tem razão, todas estão lutando.
    -Hum... continue!

                  Caligaria aproximou-se daquele eixo e começou o reparo, usando suas ferramentas de manutenção.

    -Tenha cuidado, por favor! Pedia a pequena Mechabee.
    -Sem problemas! Você está me dizendo que isto é uma guerra?
    -Sim, uma longa e triste guerra. Nossos povos viviam de maneira pacífica, até que um dia...
    -Sei... o que houve nesse dia?
    -Oh! Desculpe! Estou sendo rude ao não me apresentar: meu nome é Mélanie.
    -Legal te conhecer Mélanie.
    -Rápido! Elas estão voltando!

                  De longe duas mechabutterfly vêm voando, o ruido é fácil de ser identificado. Prontamente, Caligaria abriu as asas e atacou cortando as asas das inimigas que se estatelaram no solo. Mélanie ficou muito admirada com a atitude de Caligaria.

    -Agora temos peças para o seu novo eixo!
    -Vai tirar delas?
    -Claro, caso não se importe de usar as peças de suas inimigas.
    -Se me ajudar a cumprir o meu dever, eu aceito.

                  Caligaria caminhou até uma das mechabutterfly e retirou partes daquelas asas.

    -Ficarão sem voar um tempo e nós poderemos ganhar esse tempo.

                  Trazendo as partes e peças, Caligaria observou a estrutura de ambas: mesmo sendo inimigas as peças eram as mesmas e isso a fez pensar mais sobre tudo aquilo...

    -Mélanie, tente agora.!

                  A pequena mechabee levantou-se para mover suas asas.

    -Perfeito! Obrigada, Caligaria!
    -De nada. Agora já vou. Boa sorte e tenha cuidado.
    -Poderia esperar um instante?
    -O que houve?
    -Queria te pedir um favor.
    -Qual?
    -É sobre a rainha das mechabutterfly. Talvez você, com sua habilidade, pudesse nos ajudar.

                  Caligaria voltou-se para a pequena mechabee e sentou naquela grama verde.

    -Sou toda ouvidos. Pode contar sua história. Afinal estes mundos são totalmente estranhos. De onde eu vim, não de meu planeta natal mas da cidade onde moro atualmente, tem uma lagosta gigante que é o rei de uma cidade no fundo do oceano. Qual a razão para ficar surpresa com uma rainha abelha? Todos os dias, creio estar vivendo um conto de fadas, onde só leio as páginas mais complicadas.
    -Lagosta gigante? Conto de fadas? Do que está falando?
    -Não se preocupe, eu também não entendo muito. A rainha tem problemas?
    -Ela desapareceu.
    -Hum! Vamos sair logo daqui, antes que venha mais alguma destas nos procurar. No caminho você me conta o restante.
    -Certo!

                  Agora as duas ganhavam o céu e Mélanie ditava o destino.

    -Vamos para o leste. Lá é a morada das mechabutterfly.
    -Ok!
    -Desdes os tempos mais remotos, a paz sempre reinou por aqui mas, subitamente, a queen butterfly desapareceu. Nossa queen mechabee acredita que ela não foi destruída e me pediu para procurá-la.
    -Hum... eu, pessoalmente, jamais gostei de guerras.
    -Mas você é uma guerreira, não é?
    -Ultimanente eu não sei mais quem ou o que eu sou. Mas uma coisa eu já sei: quero parar de combater para encontrar outros objetivos.
    -Legal, você comentou sobre a cidade onde vive. Onde fica?
    -Mechapolis.
    -Não entendi.
    -Mechapolis: é este o nome da cidade onde vivo agora.
    -E lá tem mais seres como você?
    -De todos os tipos.
    -Tem rainhas?
v-Não exatamente. Há um líder cujo nome é Maximillian e todos o chamam de jovem fundador. Deve ser porque ele fundou aquela cidade o que é outra estória...
    -E como ele é?
    -Literalmente? Quase um cavalo!
    -Cavalo?
    -Sim! Sabe como é? Da metade para baixo ele tem quatro pernas e a metade de cima é como eu.
    -Nossa! Jamais imaginei algo assim! Seu mundo é insano...
    -Depois faço um desenho, para facilitar a explicação.
    -Vou cobrar.
    -Mas o que realmente importa são suas idéias. Eu vivi grandes guerras, fui obrigada a combater nos dias mais duros. Agora, que estou morando em Mechapolis, quero acreditar nas idéias pacifistas do fundador, embora não acreditando em um mundo totalmente em paz, sempre lutarei por essa ótica.
    -Puxa! Como você o admira!
    -Admirar? Nunca pensei nisso... talvez, sim.
    -HeHeHeHe!
    -Hum... algo a frente... posso ouvir...
    -Mechabutterfly! Ali! Sobrevoando aquele desfiladeiro!
    -Este som jamais conseguirei esquecer.
    -Façamos assim: eu vou descer e você continua aqui neste platô. Qualquer problema, fuja.
    -Está bem.

                  Caligaria começou sua descida, de maneira furtiva, aproveitando o final do dia e suas cores mais sombrias a ajudam nesse momento. Ao pousar, escondeu-se atrás de umas pedras e ficou a observar o local: as mechabutterfly, ali presentes, desceram pela grande fenda. Aproveitando a deixa, Caligaria foi se esgueirando pelas bordas até conseguir ver o fundo. Eram várias cavernas mas apenas uma emanava luz.

    -Vamos até ali? Indagou Mélanie.

                  Caligaria deu um pulo de susto. Era sua pequena amiga mechabee que resolveu segui-la.

    -Não faça mais isso!
    -Desculpe, pensei em ajudar.
    -Ajude o quanto quiser, mas fique em silêncio!

                  As duas agora desciam até a boca daquela caverna, tentando descobrir algo: identificaram uma gaiola.

    -Ali! Ali! Queen mechabutterfly!
    -Estou vendo, ela é bem diferente das outras.
    -Não entendo...
    -Fique quieta! Vem uma outra! Vamos ouvir!
    -Atenção, pelotão! Manteremos por mais esta noite a prisioneira. Amanhã daremos um fim decente para nossa velha monarca. Por hora, mantenham a vigilância!
    -Você ouviu Caligaria? Vão destrui-la!
    -Xii, quieta! Assim vai denunciar a nossa presença.
    -Não posso permitir isso, vou entrar!

                  Tentando impedir sua pequena amiga, Caligaria pouco pôde fazer e a pequena mechabee penetrou naquele espaço. Caligaria olhou para cima e se perguntou : -Que faço eu aqui??? Quanto mais me previno, mais problemas encontro.

                  Pensando nisso, saltou para dentro da caverna e, aproveitando o embalo da confusão, cortou dois pares de asas, derrubando duas mechabutterfly.

    -Isso mesmo!! Falava Mélanie.

                  Sem perceber, a pequena mechabee é atingida e uma grande mechabutterfly aparece.

    -HaHaHaHa! Como ousa nos deter, pequenina! Vamos vencer sempre!

                  Vendo a pequena mechabee tombar, Caligaria se retesou e resolveu não mais controlar seus instintos: partiu para o ataque. A mechabutterfly era de grande porte mas não possuía a mesma velocidade de Caligaria, mal conseguia acompanhar o movimento dela. Agora chegavam mais duas inimigas. O combate se mostrava mais difícil.

                  Então Caligaria olhou para o teto escuro da caverna para observar a estrutura... teve uma idéia... partiu para cima das novas mechabutterfly e elas, com um simples movimento, escaparam. Pensando na vitória, Caligaria mirou o teto e, ao atingí-lo, causou um desmoronamento, fazendo aquela gaiola tombar. voltou para salvar a pequena mechabee e a retirou da caverna, sendo seguida pela queen
mechabutterfly.

    -Caligaria?
    -Poupe suas energias... não fale muito... apenas o necessário...
    -Quem é você jovem?
    -Caligaria, majestade! Estou tentando ajudar esta mechabee a salvá-la.
    -Obrigada! Fui aprisionada há muito tempo.
    -Creio estar tudo melhor agora, somente não sei para onde levar esta pequenina.
    -Eu mostro o caminho: vamos para a colméia. Queen Geneviève, a esta hora, deve estar preocupada com sua filha.
    -Filha? Então ela é...?
    -Princess Mélanie, obviamente.
    -Não perguntei ainda seu nome, majestade.
    -Marie.

                  Depois de algumas horas, elas começam a ver o lar das mechabees. Ao se aproximarem do local, um grupo de mechabees tenta interceptá-las e, antes de iniciarum ataque, elas avistam a Queen e a filha de sua majestade. Prontamente deram passagem e escoltaram-nas para o interior da colméia.

                  Pousando naquele imenso lugar, Caligaria sente o esgotamento, depois de lutar e voar por tanto tempo. Mal tem forças para ficar em pé e senta-se no chão mesmo. Nisso, aproxima-se outra mechabee gigante e também de cor diferente: ela é a Queen das mechabees. Novamente, Caligaria pensa que é um sonho: cada fato novo que via... já nem compreendia mais os motivos que a tinham levado a tal lugar... desmaiou ali mesmo.

    -Queen Geneviève! Quanto tempo!
    -Olá minha amiga! Tempo mesmo! Poderia me explicar o que se passa aqui?
    -Uma longa história. Apenas adianto que ambas estão exaustas e merecem total atenção, depois eu conto tudo com detalhes.
    -Está certo. Guardas!
    -Sim, senhora!
    -Levem minha filha para dentro e cuidem bem dela.

                  Duas mechabee guardas levam a princesa, enquanto Caligaria continua caída.

    -E a outra? Não ajudará?
    -Nada compreendo sobre este ser. Acho que nada posso fazer.

                  Uma voz rouca foi ouvida.

    -Não irei sem Caligaria! Recuso o meu tratamento!
    -Mas... minha filha! O que sabe sobre este ser?
    -Sei que me ajudou nas horas mais difíceis e merece nosso maior respeito.
    -Talvez precise apenas repousar. Ela me salvou, Geneviève! Lembrava a Queen mechabutterfly.
    -Certo, Marie! Guardas, levem esta jovem para dentro a fim de que possa repousar.
    -Sim.

                  Agora todos entram e as duas Queen podem colocar os assuntos em dia.

                  Outro dia

                  Sentindo o calor esquentar seu rosto, Caligaria começa a despertar. Abrindo seus olhos lentamente, observando ao redor, tentando entender massendo inviável. Aquele ambiente era uma das imensas células da grande colméia. As paredes filtravam os raios de sol e permitiam a entrada de luz e calor. Ao olhar para seu lado, observou uma vertiginosa queda. De repente, uma mechabee passou diante dela.

    -Quando este sonho vai terminar? E eu, reclamando da lagosta...

                  Uma mechabee observou o despertar de Caligaria e informou à rainha. Prontamente, recebeu ordens para levar sua hóspede até a presença de ambas.

    -Ir com você?
    -Sim. Queen Geneviève pede sua presença, agora.
    -Certo, vamos indo.

                  Caligaria saltou e assustou todas as outras mechabee, ela realmente gostava de começar o dia com um vôo. Adorou aquela colméia. Todos os dias poderia cultivar seu hábito matinal sem nenhum problema visto que, ali, para atingir qualquer andar, teria de ser voando.

    -Por favor, voe a sua esquerda, primeira passagem seguinte.
    -Sem problemas.

                  Continuando a voar, Caligaria até tinha deixado de lado os problemas do dia anterior e agora queria curtir aquilo tudo. Mas sua " farra " terminou quando aquele túnel terminou num saguão, onde as duas rainhas conversavam. Mélanie a recebeu assim que chegou.

    -Caligaria!!
    -Bom dia, Mélanie! Consertou o seu sistema?
    -Sim, posso voar melhor agora!
    -Isso é bom para nós, seres alados. Ficar sem voar é muito triste. Vê que não se mete em nenhuma encrenca, tão cedo!
    -HeHeHeHe! Pode deixar.

                  Pousando e caminhando em direção às duas grandes rainhas, Caligaria demonstra respeito e, curvando-se, cumprimenta-as.

    -Fique de pé, jovem filha do mais antigo tempo. Pedia Queen Geneviève.
    -Como?
    -Ontem quando chegou até este lugar, eu reconheci seus traços, mesmo estando tão deturpados, compreendi o seu destino.
    -Você me conhece?
    -Roubando uma das frase de Maitrec: " não sou a resposta ".
    -Também o conhece?
    -Sim. Todos o conhecem e a este lugar, também. Apesar de tanto tempo decorrido, nós conhecemos sua história.
    -Ótimo! Agora entendo o motivo de estar me sentindo tão bem, acordando nesta colméia.
    -Um dia, a resposta vai contar tudo melhor. Por hora, você deve cumprir com sua missão primordial: por acaso a conhece?
    -Não. Maitrec falou muito, mas pouco disso me ajudou. Ele só me mostrou onde começava o caminho e, agora, eu estou aqui.
    -Correto, jovem Caligaria! Aceite este nosso humilde presente. Guardas! tragam a urna!

                  Neste momento, um dos guardas, trouxe uma pequena urna para Caligaria que, por sua vez, abriu sem pensar e viu algo diferente.

    -O que é este pó?
    -HaHaHaHaHa! Começou a rir Queen Geneviève.
    -Mamãe! Ela está ficando sem graça.
    -Desculpem-me. Jovem Caligaria, isso não é um pó, isso é uma areia refinada, preparada e guardada apenas para este dia. Leve-a consigo e mostre-a para Maitrec. Ele, com certeza, saberá o que deve ser feito.
    -Obrigada, majestade. Agora devo partir. Tenho amigos me esperando.
    -Vá, Caligaria! Seu destino a espera e suas perguntas serão respondidas ao devido tempo. Confie em seus pensamentos, eles trazem a verdade.

                  Caligaria despede-se de todos, vira-se e sai correndo com aquela urna em seus braços, cruzando o imenso saguão e aproximando-se da saída, ela estende suas prateadas asas e chegando a borda, salta e parte em direção as escadarias. Queen Geneviève acompanha-a com os olhos e ouve uma pergunta de sua filha.

    -Algum dia voltaremos a encontrá-la?
    -Jovem Caligaria não sabe, ainda, mas nossos mundos estão todos interligados de maneira inimaginável.

                  Voando por todo aquele céu azul, Caligaria ainda mantinha o seu bom humor, atravessando nuvens, dando rodopios e piruetas. Ela realmente estava muito feliz. Em meio a tantos loopings, olhou para trás e viu um grupo de mechabee e mechabutterfly acompanhando-a até as escadarias.

                  Ao chegar ali, ela despediu-se de todas e olhou para cima.

    -Quando minhas perguntas terão respostas mais claras?

                  Deixando as perguntas de lado, prosseguiu seu vôo. Conhecendo o caminho com mais exatidão, apenas precisava seguir as escadarias. Seus pensamentos agora focavam Maitrec e aquela urna.

                  Do outro lado daquele vasto percurso, Maitrec concentra seus pensamentos: depois de tanto tempo esperando, pela primeira vez, ficou impaciente, pensando em Caligaria e em todos os riscos, aos quais ela ficara exposta.

    -Talvez... talvez não... absurdo! Não cabia a mim tal dever. Mas, pensando com calma, acredito mais que deveria ter ido. Isso poderia mudar o destino.
    -Que destino?
    -O nosso destino hora.
    -Mas e qual é esse destino?
    -Infelizmente não sou a resposta. Mas... hein?

                  Levantando-se do chão, Maitrec leva um grande susto. Quem conversava consigo? Caligaria pairava ali...

    -Caligaria?!?!?
    -Sim. Estou de volta.
    -Esta urna!?! Indagava Maitrec.
    -Queen Geneviève disse que você sabia qual o destino e não me enrole mais. Quero saber agora!

                  Maitrec não aguentou sua alegria e apenas apontou para o alto da envelhecida ampulheta.

    -Despeje lá!

                  Caligaria continua seu vôo até o topo da imensa ampulheta onde encontrou um pequeno orifício para despejar toda aquela areia.

                  Ao fluir, a areia concentrou-se em um só ponto e Caligaria, ao descer, notou haver maior quantidade de areia do que trouxera na urna.

    -E agora?
    -Agora ou daqui a pouco? Talvez, já!... Ou mais tarde... mas o próprio tempo precisa de um tempo para reviver.

                  Caligaria começou a notar tudo a sua volta se modificar: tanto o chão quanto o teto. Aquela ampulheta, lentamente, deixava a areia fluir para a sua base e isso gerou uma grande luz, ofuscando-lhes a visão. Precisando de alguns momentos para se recuperar, Caligaria voltava a ouvir a voz daquela primeira porta. E, quando pôde, finalmente, abrir os olhos, enxergou-a. Aquele ser, antes petrificado, transmudou-se da forma neutra e, agora, tão serena, tinha despertado em suas formas douradas.

    -Obrigada, minha doce Caligaria!